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Limites da consciência em Wittgenstein - Entrevista com a filósofa Carla Carmona

Os limites da consciência em Wittgenstein: este é o tema da entrevista que o professor Dr. Edimar Brígido, que faz parte do corpo docente da Faculdade Vicentina, realizou com a Dra. Carla Carmona. O conteúdo foi veiculado na Aufklärung: Revista de Filosofia (volume 6, número 2) – publicação editada pelo Grupo de Pesquisa Teoria Crítica e Hermenêutica, da Universidade Federal da Paraíba. 

Sobre a entrevistada*: Carla  Carmona é filósofa  espanhola. Doutora em  Filosofia pela Universidade de Sevilha. É professora de Filosofia na Universidade de Sevilla. Especialista em estética, Filosofia da Linguagem, e Viena fin de siècle. Possui pesquisas de referência internacional sobre a estética no pensamento de Ludwig Wittgenstein. Publicou numerosos artigos sobre os pensamentos de Egon Schiele e Ludwig Wittgenstein. Tem desfrutado de  numerosas estadias de investigação na Áustria, trabalhando com especialistas do contexto da Viena  fin de  siècle.  Nos  últimos  anos, se dedicou ao estudo do pensamento estético e político de Peter Sloterdijk. Em 2014 publicou Tributação voluntária e responsabilidade cidadã. Vale a  pena mencionar  seus livros A  ideia  pictórica  de Egon Schiele: Um Ensaio sobre a  lógica representacional (Edições Genueve, 2012), Tightrope do eterno: Na gramática alucinado Egon Schiele (Cliff, 2013), Egon Schiele: Writings 1909­-1918 (a Micro, 2014), Ludwig Wittgenstein: La consciencia del limite (Biblioteca Discover filosofia, El País, 2015).

*Currículo publicado pela revista.

Confira um trecho da entrevista:

Edimar Brígido: Sobre a filosofia desenvolvida por Ludwig Wittgenstein, estudos recentes têm sugerido a existência de um Wittgenstein mais próximo de discussões antropológicas e estéticas, superando em alguma medida os debates tradicionalmente fundamentados em torno da lógica caboariana e da linguagem. Nós nos referimos a Wittgenstein mais próximo do cotidiano, realidade em que a vida realmente acontece em sua dimensão prática, o que poderia ser denominado realismo empírico. Você concorda com esta nova perspectiva? Seria válido aproximar Wittgenstein de temas como antropologia e estética?

Carla Carmona: Sim, concordo totalmente com essa maneira de conceber o desenvolvimento da filosofia de Wittgenstein. Eu gosto de pensar que a lógica inicial, pura, matemática, não passa de uma pequena parte da lógica de sua mais recente filosofia, animal, enraizada em jogos de linguagem, que por sua vez afunda suas raízes no que poderíamos chamar de uma forma de vida. Por que Wittgenstein insistia tanto que tudo o que podia fazer era descrever? Porque ele considerou que não há outra base senão o conjunto de práticas circunscritas a um modo de vida, e isso só pode ser descrito, pois no fundo não há nada para explicar. Em outras palavras: não há outro princípio lógico que não seja a lógica da vida; nesse sentido, o único fundamento é antropológico. Digamos que toda a sua filosofia, sua concepção filosófica, incluindo seu interesse no funcionamento da linguagem, tem esse viés antropológico, assim como seu olhar é estético, o que determinou sua maneira de trabalhar. 

Mas se levarmos em conta os diários que ele escreveu junto com o Tractatus e, em geral, esses tipos de escritos mais pessoais, que o acompanharam ao longo de sua vida, descobrimos que Wittgenstein estava sempre preocupado com essas questões. Às vezes, quando ele fala de si mesmo, mesmo quando estava verdadeiramente mal, temos a impressão de que ele atua como um antropólogo. Também é importante lembrar que Wittgenstein escreveu sobre antropologia, ou melhor, que ele criticou uma prática perniciosa da antropologia que se abandonou à inclinação de considerar assuntos tão limitados a ponto de explicar comportamentos altamente complexos, como a prática de magia ou rituais determinados, como resultado da ignorância e até da estupidez. Refiro-me às Observações ao Ramo Dourado de Frazer, um livrinho maravilhoso, indicativo de uma aparência estética antropológica invejável.

Edimar Brígido: Então, seria correto considerar a vida de Wittgenstein, seus gestos, seus atos, suas reações, como a parte não escrita de seu pensamento filosófico?

Carla Carmona: Em parte sim, em parte não. A vida de uma pessoa é composta de muitas coisas e é impossível reuni-las coerentemente em uma única coisa, e se tentarmos, somente o que obteremos será uma história melhor ou pior contada. A verdade é que não sou dada a esse tipo de afirmação. Parece-me um pouco forçado tentar encaixar sua vida no que Wittgenstein disse em relação ao Tractatus para Ludwig von Ficker que o não-escrito era tão importante quanto o que estava escrito no livro. Acredito que a filosofia de Wittgenstein possa iluminar grande parte de sua biografia e vice-versa, mas não ousaria dizer que uma é o inverso da outra, e não acredito que biografia e vida tenham a mesma influência sobre a outra em todos os momentos de sua vida. Eu sei que teria sido mais atraente responder que sim, e que Wittgenstein considerou que o que não foi dito era como silêncio, e que, de alguma forma, há a superação da palavra e da teoria, para que o que não foi dito pudesse ser precisamente a vida vivida, e que além disso considerava fundamental, mas temo que fosse apenas uma história bonita. 

Edimar Brígido: Professora Carla, poderia nos falar um pouco sobre o trabalho "Ludwig Wittgenstein: A Consciência do Limite"?

Carla Carmona: Este é um trabalho que visa aproximar o pensamento de Wittgenstein de qualquer pessoa interessada, independentemente de sua formação filosófica ou não. Não por ele, no entanto, é um livro de divulgação, uma vez que as questões e problemas filosóficos que interessam a Wittgenstein são estudados em profundidade. Tentei dar uma abordagem completa ao pensamento de Wittgenstein, reunindo os interesses lógicos que o levaram a Cambridge, para trabalhar ao lado de Bertrand Russell, ou a virada antropológica que deu sua filosofia da linguagem, como também as preocupações que ele compartilhava com os críticos modernos que se encontravam em Viena, quero dizer autores como Karl Kraus, Adolf Loos ou Otto Weininger. Concordo com Allan Janik e Stephen Toulmin que não se pode entender a filosofia de Wittgenstein, muito menos sua visão de mundo, se não se tem em mente o universo de significados que lhe proporcionou sua origem vienense e pertencer a uma família tão envolvida nas artes.

Clique aqui para ler a continuação desta última resposta e a entrevista na íntegra, em espanhol.