Começamos o ano com alguns depoimentos de alunos de graduação da Faculdade Vicentina, que contam suas experiências com os cursos de Filosofia e Teologia e destacam algumas características da instituição de ensino.

O aluno Mateus Henrique Costa Silva conta um pouco de como se sente por estudar Filosofia na FAVI:



Tiago Gulmine da Silva também compartilha sua vivência no curso de Filosofia:



Confira, ainda, o relato inspirador de Geovanni de Luca, que já cursou Filosofia e agora está se aprofundando em Teologia:

 

Estão abertas as inscrições para o Vestibular de Verão da FAVI. Clique aqui para saber mais. 

Para celebrar a conclusão de mais um ano de atividades da Faculdade Vicentina, o diretor geral, Pe. Ilson Luís Hubner, preparou uma mensagem para toda a comunidade acadêmica.

Confira:

No último sábado, 14 de dezembro, a Faculdade Vicentina celebrou mais uma conquista do calendário letivo: a realização das últimas aulas de duas turmas de pós-graduação, com entrega de certificados aos estudantes.

Vanessa Dumas, que finalizou a pós em Aconselhamento e Orientação Espiritual, deixou uma mensagem de agradecimento. “O que posso dizer é que saio daqui muito diferente do que entrei… Uma evolução espiritual e de conhecimentos única, com certeza me tornei uma pessoa muito melhor. Agradeço à FAVI, a todos os professores e aos colegas de turma que fizeram parte desse crescimento”, escreveu.

“A conclusão do curso de outras duas turmas de pós-graduação, uma em Teologia Bíblica e outra em Aconselhamento, é mais uma etapa do grande projeto da Faculdade Vicentina, que busca capacitar pessoas, de modo que possam prestar um serviço qualificado na sociedade e na Igreja. Enquanto se alegra com os que concluíram, a equipe trabalha intensamente na organização de novos cursos para o ano de 2020”, destaca o professor Luiz Balsan, um dos coordenadores da pós-graduação da FAVI.

Entre os dias 26 e 29 de novembro de 2019, os estudantes do último ano de Filosofia e Teologia da Faculdade Vicentina vivenciaram uma etapa muito esperada de sua formação: a apresentação de suas monografias. 

“A apresentação das monografias é um momento de particular importância no curso de bacharelado de Filosofia. Enquanto a licenciatura tem como principal objetivo preparar docentes para o ensino fundamental e médio, o bacharelado busca formar pesquisadores. Dentro desta perspectiva, o curso de Filosofia da Faculdade Vicentina dá uma atenção particular à formação para a pesquisa ao longo dos três anos do curso. E a monografia é a expressão, por excelência, do exercício realizado pelo discente com a orientação de um professor”, comenta o professor Luiz Balsan, coordenador do curso de Filosofia.

 

Confira os títulos dos trabalhos apresentados, seus autores e orientadores:

Monografias de Teologia

Bancas Teologia 2019

Monografias de Filosofia

Bancas Filosofia 2019

O dia 6 de dezembro de 2019 ficará marcado na memória de mais uma turma do curso de graduação em Filosofia da Faculdade Vicentina. A conquista foi celebrada com uma Missa de Ação de Graças, na Paróquia São Vicente. Na sequência, a cerimônia de colação de grau foi realizada no auditório da FAVI.

Confira o depoimento do formando Lucas Oliveira sobre este momento especial.

Depoimento

“Quanta coisa boa a filosofia me proporcionou ao longo deste percurso?

Se fosse descrever, a lista seria enorme. Ela é a mãe de todas as ciências, uma atitude de pergunta, que não visa uma resposta imediata, mas que constrói o pensamento humano num caminho de reflexões, pautadas na sabedoria e no entendimento, pelos quais apontam milhares de respostas para os problemas possíveis.

O mundo é reflexão, portanto, o mundo é filosofia.

Filosofar é a arte do saber, saber perguntar, saber dialogar, saber compreender e amar, amar a felicidade, que é o princípio norteador que orienta e conduz o conhecimento humano, afinal a felicidade é um sonho humano, ninguém a entende, mas a explica vivenciando-a.

Durante estes anos, devo agradecer primeiramente a Deus, por esta conquista, Ele que é o princípio e realizador de toda a história, me capacitando nesta conquista; a meus amigos e apoiadores; professores(as); etc., aqui vai meu MUITO OBRIGADO. Cada experiência adquirida é um conhecimento plantado no mundo.

Que bom, sou feliz, me formei e agora estou aqui. Não vou mudar o mundo, mas vou contribuir para um mundo novo. Aqui se começa uma nova história, novas vivências e novas trajetórias, que elas sejam vitoriosas”.


Na carta de Advento deste ano, o Pe. Tomaž Mavrič, CM, o 24º sucessor de São Vicente, convida-nos a olhar para o amor providencial de Deus e a refletir sobre alguns textos chave de São Vicente de Paulo que nos ensinam a confiar em Deus e no cuidado contínuo que ele tem por nós.

“Hino à providência”

Meus queridos irmãos e irmãs em São Vicente,

A graça e a paz de Jesus estejam sempre conosco!

Para cada um de nós, a vida é uma peregrinação. Estamos constantemente em movimento. Essa peregrinação não é tanto um deslocamento físico, de um lugar para outro, mas sim, um movimento interior dos nossos pensamentos, reflexões, percepções sensoriais e da nossa oração.

Durante o ano, a Igreja nos oferece momentos privilegiados, pausas ao longo do percurso, para nos ajudar a aprofundar nossa compreensão da peregrinação de nossa vida e encontrar todos os dias o sentido, mesmo de cada minuto, do que constitui este caminho. Aprendemos a estar cada vez mais atentos aos acontecimentos cotidianos, às pessoas que encontramos, aos pensamentos, às emoções que surgem e à natureza – árvores, flores, rios, montanhas, animais, sol, lua, etc. – que nos rodeia. Nossa atenção e solicitude se estendem progressivamente à humanidade inteira e a todo o universo.

Um destes tempos fortes é o Advento. Neste período privilegiado do ano, continuaremos a nossa reflexão sobre os elementos que moldaram a espiritualidade vicentina e que levaram São Vicente de Paulo a se tornar um místico da Caridade. Além daqueles sobre os quais refletimos nos últimos três anos, outro fundamento da espiritualidade vicentina é a Providência.

Os termos a seguir podem expressar a essência da Providência: “a orientação de Jesus para minha vida”, “o projeto de Jesus para a minha vida”, “a prescrição de Jesus para uma vida cheia de sentido”.

A Providência traça o seu caminho em nosso ser, em nossa mente e em nosso coração sob uma condição: a da confiança. Ter confiança na “orientação de Jesus para minha vida”, “o projeto de Jesus para a minha vida”; “a prescrição de Jesus para uma vida cheia de sentido”. Nós nos colocamos nas mãos de Jesus, confiantes de que sua orientação para a nossa vida é a melhor possível, seu projeto para a nossa vida é o melhor projeto possível e sua prescrição é a melhor referência possível para uma vida cheia de sentido.

A Providência será efetiva em nossa vida de acordo com a profundidade da nossa confiança em Jesus. Quanto mais profunda for a nossa confiança em Jesus, mais permitiremos que a Providência realize milagres em nossa vida. Quanto mais nos colocarmos nas mãos de Jesus, mais estaremos em condições de ler os acontecimentos cotidianos, os encontros e os lugares como meios pelos quais Jesus nos fala. Quanto mais confiarmos no projeto de Jesus para nós, mesmo quando os acontecimentos são incompreensíveis ou dolorosos, mais poderemos contar com a Providência. Colocarmo-nos nas mãos de Jesus e confiar plenamente nEle nos ajuda a deixar a Providência agir em nós, em todas as circunstâncias da nossa vida.

Diante do fato de nos “abandonarmos” nas mãos de Jesus em todas as situações, o nosso olhar se transforma. Não avaliaremos os acontecimentos da vida como bons ou maus momentos, porém, nós os consideraremos através da pessoa de Jesus, fazendo-Lhe total confiança, e os reconheceremos como “o momento favorável”. Esta escolha fará desaparecer dois termos do nosso vocabulário: “destino” e “acaso”. Perceberemos que eles não são coerentes com a nossa maneira de compreender o Evangelho e Jesus.

O total abandono nas mãos de Jesus, a total confiança no projeto de Jesus e a total confiança na Providência nos ajudam a descobrir ou a redescobrir a beleza, o positivo e o sentido de cada acontecimento. Isto se opõe a um olhar sobre os acontecimentos simplesmente através dos nossos olhos, nossa mente e nossos sentimentos humanos. Neste caso, a mentalidade do destino e do acaso destaca o negativo e esconde a beleza, o positivo e o sentido de tudo o que nos afeta e nos modela.

Uma maravilhosa expressão desta confiança na Providência se encontra em uma bela oração escrita pelo Bem-aventurado Charles de Foucauld, após sua profunda conversão pessoal, que o conduziu por caminhos inesperados, durante os quais, sua confiança estava somente em Deus. Comumente chamada de “oração do abandono”, ela traduz seu pleno desejo de colocar-se entre as mãos do Pai, conforme o modelo de abandono de Jesus entre as mãos do seu Pai, e se tornar um instrumento que permite ao Pai fazer dele o que quiser. Ele está pronto para tudo, para aceitar tudo e entregar sua alma nas mãos do Pai, sem reserva e com uma confiança ilimitada:

Meu Pai,
eu me abandono a Ti,
faz de mim o que quiseres.
O que fizeres de mim,
eu Te agradeço.

Estou pronto para tudo, aceito tudo.
Desde que a Tua vontade se faça em mim
e em tudo o que Tu criastes,
nada mais quero, meu Deus.

Nas Tuas mãos entrego a minha vida.
Eu Te a dou, meu Deus,
com todo o amor do meu coração,
porque Te amo
e é para mim uma necessidade de amor dar-me,
entregar-me nas Tuas mãos sem medida,
com uma confiança infinita
porque Tu és meu Pai!

Há trezentos anos, a Providência tornou-se um dos pilares da espiritualidade de São Vicente de Paulo. Ao consultar suas cartas e suas conferências, ficamos impressionados com a frequência com a qual São Vicente fala sobre a Providência. A Providência foi um dos principais fatores que moldaram Vicente para torná-lo a pessoa, o santo que conhecemos. Seu caminho de conversão, desde o Vicente de sua infância, de sua juventude e seus primeiros anos de sacerdócio, até o Vicente que abraçou a Providência e a quem chamamos Santo, não foi fácil.

Ele tinha seus próprios projetos e sua própria ideia da função do sacerdote, suas próprias ambições e seus objetivos egoístas. No entanto, ele chegou a renunciar a sua própria vontade, a colocar Jesus no primeiro plano, a confiar inteiramente nos projetos de Jesus e não nos próprios, e a “cantar” frequentemente e de diferentes maneiras o que poderíamos chamar um “Hino à Providência”. De fato, esta mudança radical em si foi um milagre. São Vicente, tendo total confiança na Providência, tornou-se a própria Providência para os outros, para os pobres. Foi o ponto culminante de uma união mística, porém, não de uma união mística abstrata, mas de uma união mística que provocou uma resposta afetiva e efetiva.

Para a meditação, gostaria de oferecer um trecho da composição de Vicente de um “Hino à Providência”, fruto de sua reflexão sobre as experiências de sua vida.

“ … como há imensos tesouros ocultos na santa Providência e como honram de modo soberano a Nosso Senhor os que a seguem sem jamais ultrapassá-la!”[1]

“ … abandonemo-nos à divina Providência; ela saberá propiciar-nos o que precisamos”[2].

“ … repassando todas as coisas principais acontecidas na Companhia, parece-me, e é fácil demonstrá-lo, que, se tivessem sido feitas antes do seu tempo, não teriam tido êxito. Digo-o de todas, sem excetuar uma sequer. Por causa disso, tenho uma devoção particular em seguir passo a passo a adorável Providência de Deus. A única consolação que tenho é que me parece que foi unicamente Nosso Senhor que fez e faz incessantemente as coisas desta pequena Companhia…”[3].

“Entreguemos, entretanto, isso à conduta da sábia Providência de Deus. Tenho uma devoção especial em segui-la, e a experiência me faz ver que ela faz tudo na Companhia e que nossas providências o impedem”[4].

“A graça tem sua hora. Abandonemo-nos à providência de Deus e nos guardemos de ultrapassá-la. Se for do agrado de Nosso Senhor dar-me alguma consolação em nossa vocação, será por isto: penso, ao que me parece, que nos temos empenhado em seguir, em todas as coisas, a santa Providência e temos procurado não colocar o pé a não ser onde ela nos indicou”[5].

“A consolação que Nosso Senhor me concede está em pensar que, pela graça de Deus, procuramos sempre seguir e não antecipar a Providência que, com muita sabedoria, conduz todas as coisas ao fim para o qual Nosso Senhor as destina”[6].

“Não podemos assegurar melhor nossa felicidade eterna do que vivendo e morrendo no serviço dos pobres, entre os braços da Providência e em total renúncia a nós mesmos, para seguir a Jesus Cristo”[7].

“Submetamo-nos à Providência, ela fará nossos negócios a seu tempo e ao modo dela”[8].

“Ah! Meus irmãos, peçamos muito a Deus este espírito para toda a Companhia, que nos leve por toda parte, de sorte que, quando virem um ou dois missionários, possam dizer: ‘Eis aqui homens apostólicos, preparados para irem aos quatro cantos do mundo, levando a Palavra de Deus’. Roguemos a Deus que nos conceda esse coração. Há alguns que, pela graça de Deus, o possuem, e todos são servos de Deus. Mas, ir para lá! Ó Salvador! Não fazer dificuldade para ir! Ah! Isso sim é importante! É preciso que tenhamos este coração, tenhamos todos um mesmo coração, desapegado de tudo, uma perfeita confiança na misericórdia de Deus, sem ficar especulando, sem nos inquietar, sem perder a coragem. “Terei tal coisa naquele país? Por que meio?” Ó Salvador! Deus não nos faltará nunca! Ah! Meus senhores, quando ouvirmos falar da morte gloriosa dos que lá estão, ó Deus! Quem não desejaria estar no lugar deles! Quem não desejaria morrer como eles, ficar seguro da recompensa eterna! Ó Salvador! Haverá algo de mais desejável? Não fiquemos, pois, amarrados a isto ou aquilo, coragem! Vamos para onde Deus nos chamar, ele será nosso despenseiro, nada temamos. Ora pois, bendito seja Deus!”[9].

No início deste tempo do Advento, inspiremo-nos na oração do abandono do Bem-aventurado Charles de Foucauld. Nosso Santo Fundador, São Vicente de Paulo, e todos os demais Bem-aventurados e Santos da Família Vicentina encarnaram em suas próprias vidas uma confiança absoluta em Jesus e, em seu tempo e contexto respectivos compuseram um “Hino à Providência”. Possamos nós também compor o nosso próprio “Hino à Providência”.

Seu irmão em São Vicente,

Tomaž Mavrič, CM
Superior Geral da Congregação da Missão

 

Notas:

[1] SV, vol. I, Carta 31 à Luísa de Marillac, pág. 78.

[2] SV, vol. I, Carta 245 a Roberto de Sergis, Padre da Missão, em Amiens, pág. 398.

[3] SV, vol. II, Carta 559 a Bernardo Codoing, superior, em Annency, pág. 252.

[4] SV, vol. II, Carta 678 a Bernardo Codoing, superior, em Roma, pág. 488.

[5] SV, vol. II, Carta 704 a Bernardo Codoing, superior, em Roma, pág. 528.

[6] SV, vol. II, Carta 707 a Bernardo Codoing, pág. 532.

[7] SV, vol. III, Carta 1078 a Jean Barreau, cônsul da França em Argel, pág. 472.

[8] SV, vol. III, Carta 1109 a René Alméras, superior, em Roma, pág. 546.

[9] SV, vol. XI, Carta 135 – Partilha de Oração, de 22 de agosto de 1655, pág. 298.

Os limites da consciência em Wittgenstein: este é o tema da entrevista que o professor Dr. Edimar Brígido, que faz parte do corpo docente da Faculdade Vicentina, realizou com a Dra. Carla Carmona. O conteúdo foi veiculado na Aufklärung: Revista de Filosofia (volume 6, número 2) – publicação editada pelo Grupo de Pesquisa Teoria Crítica e Hermenêutica, da Universidade Federal da Paraíba. 

Sobre a entrevistada*: Carla  Carmona é filósofa  espanhola. Doutora em  Filosofia pela Universidade de Sevilha. É professora de Filosofia na Universidade de Sevilla. Especialista em estética, Filosofia da Linguagem, e Viena fin de siècle. Possui pesquisas de referência internacional sobre a estética no pensamento de Ludwig Wittgenstein. Publicou numerosos artigos sobre os pensamentos de Egon Schiele e Ludwig Wittgenstein. Tem desfrutado de  numerosas estadias de investigação na Áustria, trabalhando com especialistas do contexto da Viena  fin de  siècle.  Nos  últimos  anos, se dedicou ao estudo do pensamento estético e político de Peter Sloterdijk. Em 2014 publicou Tributação voluntária e responsabilidade cidadã. Vale a  pena mencionar  seus livros A  ideia  pictórica  de Egon Schiele: Um Ensaio sobre a  lógica representacional (Edições Genueve, 2012), Tightrope do eterno: Na gramática alucinado Egon Schiele (Cliff, 2013), Egon Schiele: Writings 1909­-1918 (a Micro, 2014), Ludwig Wittgenstein: La consciencia del limite (Biblioteca Discover filosofia, El País, 2015).

*Currículo publicado pela revista.

Confira um trecho da entrevista:

Edimar Brígido: Sobre a filosofia desenvolvida por Ludwig Wittgenstein, estudos recentes têm sugerido a existência de um Wittgenstein mais próximo de discussões antropológicas e estéticas, superando em alguma medida os debates tradicionalmente fundamentados em torno da lógica caboariana e da linguagem. Nós nos referimos a Wittgenstein mais próximo do cotidiano, realidade em que a vida realmente acontece em sua dimensão prática, o que poderia ser denominado realismo empírico. Você concorda com esta nova perspectiva? Seria válido aproximar Wittgenstein de temas como antropologia e estética?

Carla Carmona: Sim, concordo totalmente com essa maneira de conceber o desenvolvimento da filosofia de Wittgenstein. Eu gosto de pensar que a lógica inicial, pura, matemática, não passa de uma pequena parte da lógica de sua mais recente filosofia, animal, enraizada em jogos de linguagem, que por sua vez afunda suas raízes no que poderíamos chamar de uma forma de vida. Por que Wittgenstein insistia tanto que tudo o que podia fazer era descrever? Porque ele considerou que não há outra base senão o conjunto de práticas circunscritas a um modo de vida, e isso só pode ser descrito, pois no fundo não há nada para explicar. Em outras palavras: não há outro princípio lógico que não seja a lógica da vida; nesse sentido, o único fundamento é antropológico. Digamos que toda a sua filosofia, sua concepção filosófica, incluindo seu interesse no funcionamento da linguagem, tem esse viés antropológico, assim como seu olhar é estético, o que determinou sua maneira de trabalhar. 

Mas se levarmos em conta os diários que ele escreveu junto com o Tractatus e, em geral, esses tipos de escritos mais pessoais, que o acompanharam ao longo de sua vida, descobrimos que Wittgenstein estava sempre preocupado com essas questões. Às vezes, quando ele fala de si mesmo, mesmo quando estava verdadeiramente mal, temos a impressão de que ele atua como um antropólogo. Também é importante lembrar que Wittgenstein escreveu sobre antropologia, ou melhor, que ele criticou uma prática perniciosa da antropologia que se abandonou à inclinação de considerar assuntos tão limitados a ponto de explicar comportamentos altamente complexos, como a prática de magia ou rituais determinados, como resultado da ignorância e até da estupidez. Refiro-me às Observações ao Ramo Dourado de Frazer, um livrinho maravilhoso, indicativo de uma aparência estética antropológica invejável.

Edimar Brígido: Então, seria correto considerar a vida de Wittgenstein, seus gestos, seus atos, suas reações, como a parte não escrita de seu pensamento filosófico?

Carla Carmona: Em parte sim, em parte não. A vida de uma pessoa é composta de muitas coisas e é impossível reuni-las coerentemente em uma única coisa, e se tentarmos, somente o que obteremos será uma história melhor ou pior contada. A verdade é que não sou dada a esse tipo de afirmação. Parece-me um pouco forçado tentar encaixar sua vida no que Wittgenstein disse em relação ao Tractatus para Ludwig von Ficker que o não-escrito era tão importante quanto o que estava escrito no livro. Acredito que a filosofia de Wittgenstein possa iluminar grande parte de sua biografia e vice-versa, mas não ousaria dizer que uma é o inverso da outra, e não acredito que biografia e vida tenham a mesma influência sobre a outra em todos os momentos de sua vida. Eu sei que teria sido mais atraente responder que sim, e que Wittgenstein considerou que o que não foi dito era como silêncio, e que, de alguma forma, há a superação da palavra e da teoria, para que o que não foi dito pudesse ser precisamente a vida vivida, e que além disso considerava fundamental, mas temo que fosse apenas uma história bonita. 

Edimar Brígido: Professora Carla, poderia nos falar um pouco sobre o trabalho "Ludwig Wittgenstein: A Consciência do Limite"?

Carla Carmona: Este é um trabalho que visa aproximar o pensamento de Wittgenstein de qualquer pessoa interessada, independentemente de sua formação filosófica ou não. Não por ele, no entanto, é um livro de divulgação, uma vez que as questões e problemas filosóficos que interessam a Wittgenstein são estudados em profundidade. Tentei dar uma abordagem completa ao pensamento de Wittgenstein, reunindo os interesses lógicos que o levaram a Cambridge, para trabalhar ao lado de Bertrand Russell, ou a virada antropológica que deu sua filosofia da linguagem, como também as preocupações que ele compartilhava com os críticos modernos que se encontravam em Viena, quero dizer autores como Karl Kraus, Adolf Loos ou Otto Weininger. Concordo com Allan Janik e Stephen Toulmin que não se pode entender a filosofia de Wittgenstein, muito menos sua visão de mundo, se não se tem em mente o universo de significados que lhe proporcionou sua origem vienense e pertencer a uma família tão envolvida nas artes.

Clique aqui para ler a continuação desta última resposta e a entrevista na íntegra, em espanhol.

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