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Com a tese intitulada “Análise narrativa da transgressão em Cades (Nm 13-14): função literária na unidade e na composição do Pentateuco”, o professor Fabrizio Zandonadi Catenassi, da Faculdade Vicentina, concluiu seu doutorado, no dia 9 de novembro – mais uma conquista celebrada pelo corpo docente da instituição em 2018.

O doutorado foi cursado no Programa de Pós-graduação em Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), pela linha de pesquisa chamada "Análise e interpretação da Sagrada Escritura". O trabalho foi orientada pelo Dr. Vicente Artuso, um dos maiores pesquisadores de Pentateuco do país.

Defesa prof. Fabrizio 2Além do orientador, participaram da banca de avaliação: Dr. Matthias Grenzer (PUC-SP), Dr. Antonio Gusso (PUCPR e Faculdade Batista do Paraná), Dr. Ildo Perondi (PUCPR) e Dr. Luiz Rossi (PUCPR).

“O texto é uma aplicação da linguística a dois capítulos do livro de Números, que retratam a condenação dos israelitas à peregrinação de 40 anos pelo deserto. Com isso, busquei compreender os traços literários do texto e, também, como ele foi estruturado em sua forma final, em um período de grandes conflitos na história de Israel”, explica o novo doutor.

O tema escolhido para a pesquisa, relacionado à formação do Pentateuco, é um desafio para a investigação contemporânea da Sagrada Escritura. “Não conseguimos reproduzir o período e a forma com que ele ganhou sua estrutura atual. Minha tese foi uma tentativa de iluminar a formação do Pentateuco, propondo que o livro de Números foi o último do conjunto a ser organizado e que a passagem que estudei, Nm 13-14, estava na base do livro. Demonstrei que, provavelmente, foi a  primeira narrativa a ser estruturada no quarto rolo do Pentateuco, estabelecendo uma forte conexão com os anteriores e posteriores. Grande parte do mérito da tese recaiu em aplicar a linguística à análise da Bíblia, revelando os interesses literários e teológicos da última organização do Pentateuco, legitimando duas correntes teológicas que predominavam no segundo período persa, a sacerdotal e a deuteronomista”, relata Fabrizio.

Resumo da tese

A perícope de Nm 13–14, que narra o envio dos exploradores a Canaã, uma rebelião de grandes proporções em Cades e o consequente castigo aos israelitas de peregrinar quarenta anos no deserto, era considerada classicamente um paradigma da combinação do modelo quadripartido de J. Wellhausen. Com a crise da teoria documentária, novos métodos foram usados para explicar Nm 13–14, contudo, ainda não havia sido conduzida uma análise narrativa do texto, que poderia iluminar as recentes discussões sobre a formação do Pentateuco, especialmente quanto ao projeto literário que confere à Torá sua forma final. Diante disso, o objetivo desse trabalho foi realizar uma análise estilístico-narrativa de Nm 13–14 à luz da unidade de Números e da construção do Pentateuco. Utilizou-se metodologicamente a análise narrativa, além da crítica da redação do texto. Foi discutida a estrutura de Nm 13–14, uma vez que a complexidade do texto levou a propostas variadas ao longo do tempo, seguida da análise narrativa das diferentes seções de Nm 13–14, com uma discussão da organização do enredo e de elementos estilístico-narrativos de cada uma. Finalmente, foi estudada a composição da perícope à luz da formação de Números, tomando como pressuposto a construção tardia do livro, em conjunto com a organização da Torá, reunindo materiais diversos em diálogo com um Triateuco e um Deuteronômio, que já tinham alcançado status proto-canônico. Quanto à narratividade, destaca-se: uma retórica narrativa construída com esmero (jogos de palavras, escolha de vocabulário, paralelismos e inspiração em duas cenas-tipo), valorizando a natureza divina da exploração e conquista; Josué e Caleb foram inseridos com papel fundamental no enredo, mas subordinados a Moisés; Moisés é colocado em uma posição privilegiada como porta-voz das ordens de Yhwh, tornando a desobediência uma transgressão a Yhwh; a presença de um tímido vocabulário sacerdotal e a valorização de Aarão. O texto destaca a necessidade da obediência para a tomada da terra, além da insistência na descendência e na legitimação da autoridade de Moisés e Aarão. Quanto à composição, Nm 13–14, pressupõe e interpreta outros textos; foi colocado como o centro dos conflitos de murmuração, provavelmente, sendo a origem da construção das tradições do deserto, do tipo Fortschreibung. Os elementos estilístico-narrativo levantados foram encontrados em textos do Triateuco, do Deuteronômio e da História Deuteronomista, muitas vezes, com ocorrência ímpar em Nm 13–14. Pode-se dizer que Nm 13–14 é um tipo de antologia, que reúne textos antigos e pós-exílicos, estabelecendo conexões literárias e teológicas com textos sacerdotais e deuteronomistas, refletindo o contrato que se estabeleceu entre essas correntes na construção do Pentateuco. Contudo, a transgressão em Cades parece refletir a prevalência da teologia de uma corrente sacerdotal, que quer submeter a História Deuteronomista à obediência da Torá.

Leia mais

Em agosto, o professor Fabrizio lançou o livro Paulo: contextos e leituras. Para saber mais sobre esta outra obra de pesquisa, clique aqui.

A época de avaliação dos trabalhos de conclusão de curso é um momento de particular importância para os bacharelados da Faculdade Vicentina. Como fechamento da graduação, representa o auge da trajetória de aprendizados vivenciados pelos alunos ao longo dos anos de formação. Entre os dias 28 e 30 de novembro de 2018, 22 discentes da Filosofia apresentaram suas monografias.

“Enquanto a licenciatura está voltada para o ensino, o bacharelado se caracteriza essencialmente pela formação à pesquisa. É por isso que a matriz curricular do curso contempla cinco disciplinas específicas que visam a formação teórica e prática, abordando as diversas fases da pesquisa, como a seleção da bibliografia; leitura, compreensão e interpretação; coleta de informações; reflexão e construção do texto; comunicação oral e escrita”, explica o professor Dr. Luiz Balsan, coordenador da graduação em Filosofia.

“Todo esse processo é acompanhado por professores com preparação específica na área o que favorece uma adequada qualificação dos docentes. As apresentações das monografias desse ano se alinham às dos anos anteriores e demonstram o amadurecimento dos discentes e sua autonomia no campo da pesquisa e produção de conhecimento”, afirma o coordenador.

Confira a lista dos trabalhos apresentados em 2018.

Monografias 1

Monografias 2

No dia 14 de novembro, quarta-feira, os integrantes do Centro Acadêmico de Filosofia da Faculdade Vicentina (CAVIF) reuniram-se com a presidenta da União Paranaense dos Estudantes (UPE), Izabela Marinho.

O encontro teve como finalidade discutir a relação entre a representatividade interna dos alunos da FAVI com as outras entidades representativas dos estudantes. O Conselho Diretivo do CAVIF convidou Izabela, representando a União Nacional dos Estudantes (UNE), para que os próprios discentes conhecessem a importância de formalizar diálogos possíveis com essas entidades.

Em sua fala, ela expôs o processo histórico e a importância dos estudantes organizados, recordando os direitos conquistados. Além disso, comprometeu-se a colaborar com o que for preciso, no que tange à regularização do novo estatuto, que em breve será aprovado em assembleia pelos estudantes da FAVI.

Em nome dos discentes, o Centro Acadêmico agradece a atenção, a disponibilidade e a presença da representante da UPE.

Colaboração: Gabriel Fiatcoski (aluno do 1º ano)

O último dia do XXXIX Simpósio de Filosofia e do V Simpósio de Teologia da FAVI (26 de outubro) começou com uma apresentação da cantora Cláudia de Lima Andrade, que também é apresentadora da TV Evangelizar, e do musicista Douglas Martins.

Na sequência, nove alunos apresentaram seus trabalhos, com temas diversos, na área da filosofia. “Este é um momento muito importante, porque aqui na Faculdade Vicentina nós formamos pesquisadores”, afirmou o professor Edimar Brígido, coordenador científico do evento. “Que possamos nos sentir provocados a revisitar nossos conceitos”, desejou no início das apresentações.

Após o intervalo, Dr. Bortolo Valle – professor da FAVI, da PUCPR e da UNICURITIBA – conduziu a conferência de encerramento, intitulada “A misericórdia em tempos de pós-verdade”.

Além de resgatar a trajetória histórica dos conceitos de pós-modernidade, pós-humano e pós-verdade, o professor compartilhou com a plateia algumas questões instigantes, tais como: “É possível falar de verdade fora de uma narração?”; “Onde estamos?; “Como sair do lugar onde estamos?”. Também apresentou quatro características principais das narrativas contemporâneas, que são rápidas, icônicas, vistas como mercadorias e, muitas vezes, delirantes (isto é, a mesma informação pode causar conforto ou desconforto de acordo com a necessidade de quem a recebe, conforme o que esta pessoa busca).

“Nunca a sociedade esteve tão apegada a narrativas do passado ou narrativas sobre um futuro desprovido de sentido”, refletiu o palestrante. Para ele, as respostas para os desafios do presente passam pelas dimensões do cuidado e da empatia, pelos compromissos que cada um tem consigo mesmo e com o outro. “O cuidado é o grande apelo social, filosófico, religioso e político destes tempos de pós-verdade”, disse Bortolo.

Ao final da conferência, professor Edimar também instigou os presentes a se questionarem: “Que mundo é este que ajudamos a construir, a partir das narrativas que reproduzimos?”. E encerrou sua fala apresentando o quadro “A verdade saindo do poço”, de Jean-Leon Gérôme, pintado em 1896, inspirado em uma fábula sobre a verdade (que se apresentaria nua e crua, nem sempre aceita) e a mentira (que, usando as vestes da verdade, circularia mais facilmente pela sociedade).

No discurso de encerramento do evento, o aluno Felipe Teider de Godoi, presidente do Centro Acadêmico Vicentino de Filosofia (CAVIF), fez um agradecimento aos participantes do Simpósio e todos aqueles que colaboraram para sua viabilização, em especial aos professores da FAVI, à Arquidiocese de Curitiba, à Editora Ave-Maria e à Rede Evangelizar de Comunicação.

Clique aqui para ver o álbum de fotos completo do evento, na página da FAVI no Facebook.

Fotos: Geovanni C. De Luca

A partir da ciência teológica, pode-se ressignificar a realidade atual e a busca pelo sentido da vida, em meio a tantas mudanças e verdades líquidas de nossa época. O curso de Teologia da Faculdade Vicentina é aberto a qualquer pessoa que possua o Ensino Médio completo, seja ela pertencente a alguma ordem religiosa ou não.

Para saber mais sobre esta graduação, confira a entrevista com o Pe. Ilson Luís Hubner, diretor geral da FAVI, que atua como professor da instituição há 10 anos e exerceu o cargo de coordenador do curso de Teologia nos últimos quatro.

Quais são os objetivos do curso de Teologia da Faculdade Vicentina?

Pe. Ilson - Quando falamos em Teologia, temos que pensar em uma Teologia atual, contemporânea. Não podemos pensar ou fazer uma Teologia manualista, como nos séculos passados, que se manteve alheia às principais questões culturais e filosóficas, bem como no campo político-social. Desta forma, um dos principais objetivos do nosso curso de Teologia é a capacidade de dialogar com a modernidade, vivendo as inseguranças e incertezas próprias do tempo presente, ciente da pluralidade dos tempos atuais.

Apesar de ser um curso fundamentado na orientação cristã-católica, está aberto a todas as pessoas de diversas concepções religiosas, o que nos enriquece no diálogo inter-religioso.

Como objetivo final, nosso curso quer formar pessoas com a capacidade de refletir, a partir da Teologia, sobre questões fundamentais para a vida, para o ser humano, mundo, criação, Trindade… Promovendo, assim, uma consciência crítica e comprometida de forma ética e religiosa no mundo atual, em suas comunidades de vivência e fé.

Quais são as principais habilidades que o aluno desenvolve ao longo dos oito semestres de curso?

Pe. Ilson - Capacidade para refletir, a partir do ponto de vista teológico, os grandes problemas e desafios apresentados pela sociedade contemporânea. Capacidade de compreender e partilhar de forma sistemática os aspectos fundamentais da fé. Capacidade de analisar, interpretar textos teológicos, seguindo os procedimentos da hermenêutica. Dialogar com diferentes áreas de conhecimento, que a partir de seus próprios métodos e óticas, buscam compreender o ser humano e sua realidade e relações sociais. Postura para assumir atitudes e abordagens que defendam e valorizem o ser humano, criatura de Deus. Capacidade de compreender e se posicionar de forma positiva diante da pluralidade e da forma multicultural em que vive e se expressa a humanidade hoje.  

Na sua opinião, qual é o ponto forte do curso de Teologia da FAVI?

Pe. Ilson - O que nos destaca é nosso quadro de professores comprometidos em fazer Teologia a partir da realidade atual da Igreja. Pensando no nosso compromisso cristão e no papel que temos em formar futuras lideranças, tanto leigas quanto religiosas, comprometidas com a verdade e a força do Evangelho, baseando-se em uma evangelização que anuncie a boa notícia e denuncie as opções contrárias ao Evangelho que se apresentam como falsas verdades, em fidelidade à Igreja.

Que benefícios o estudo da Teologia pode trazer para a vida das pessoas? Mesmo aquelas que não desejam seguir carreira como pesquisadores ou docentes desta área, podem aproveitar o curso e aplicar os conhecimentos aprendidos em seu dia a dia?

Pe. Ilson - A Teologia busca nos aproximar de Deus e compreender seu projeto salvífico. Realmente, a Teologia tem que ser vivencial, passa pela nossa história pessoal e comunitária. Fazer Teologia é encontrar-se com o sentido da nossa existência como criaturas de Deus. Todos que estudam Teologia podem e irão usá-la na caminhada pastoral, compreendendo e atualizando o mistério da Encarnação de Jesus Cristo.

Em um mundo com tantas tecnologias e transformações rápidas, pode-se dizer que o curso de Teologia continua sendo atual?

Pe. Ilson - Sim, sempre atual, pois há a necessidade de ajudar a sociedade a fazer escolhas em defesa da vida e da dignidade da pessoa, que é imagem e semelhança de Deus. Todos os temas pertinentes à pessoa e à criação, no todo, dizem respeito à Teologia. Em uma sociedade sem parâmetros, sem limites éticos e morais, perde-se a capacidade de convivência e de viver em sociedade. E a Teologia, a partir da experiência da fé, da Revelação, busca ajudar a humanidade a se encontrar como criatura de Deus, mostrando caminhos a serem trilhados, dialogando com as diferentes ciências e crenças.


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A comunidade acadêmica da Faculdade Vicentina celebra o conceito 4 obtido por seu curso de graduação em Filosofia no Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) referente ao ano de 2017. A nota – muito próxima da pontuação máxima (5) – foi publicada no Diário Oficial da União do dia 9 de outubro, a partir da Portaria nº 901/2018, e vale pelos próximos três anos.

Conforme consta no portal do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), vinculado ao Ministério da Educação (MEC), o Enade “avalia o rendimento dos concluintes dos cursos de graduação, em relação aos conteúdos programáticos, habilidades e competências adquiridas em sua formação. O exame é obrigatório e a situação de regularidade do estudante no Exame deve constar em seu histórico escolar. A primeira aplicação do Enade ocorreu em 2004 e a periodicidade máxima da avaliação é trienal para cada área do conhecimento”.

Esta prova, realizada pelos estudantes de todo o país, ajuda a avaliar a qualidade dos cursos e instituições de ensino. Por isso, a FAVI agradece a todos os alunos e professores pelo comprometimento com a educação e a formação de qualidade, que reflete-se na conquista deste conceito.

Foto: Geovanni C. De Luca

Foto: Freepik - rawpixel.com

O fenômeno das chamadas fake news é um tema muito atual, que tem feito parte do dia a dia da população, muitas vezes até sem que as pessoas percebam. E para abordar a questão, não basta um olhar puramente técnico. É necessário pensar também na formação humana dos cidadãos, em educação básica e na relação entre quantidade e qualidade de informação, entre tantos outros aspectos que fazem parte deste contexto. Para tratar do tema, com considerações a partir das áreas de estudo do Direito e da Tecnologia, bem como suas implicações para a sociedade, a Faculdade Vicentina convidou a professora Dra. Cinthia Obladen de Almendra Freitas para uma entrevista.

Prof. Cinthia Freitas PUCPRCinthia possui graduação em Engenharia Civil, pela Universidade Federal do Paraná; mestrado em Engenharia Elétrica e Informática Industrial, pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná; e doutorado em Informática, pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). É professora da PUCPR, nos cursos de Direito e Ciência da Computação. Já atuou como docente do Programa de Pós-Graduação em Informática da mesma instituição e, atualmente, integra o corpo de professores do Programa de Pós-Graduação (Mestrado/Doutorado) em Direito. Tem experiência nas áreas de Informática e Direito, atuando principalmente nos seguintes temas: Direito e Tecnologia, Direito e Internet, Direito Eletrônico, Direito Digital, Novas Tecnologias, Contratos Eletrônicos, Direito do Consumidor, Direito de Autor, Sociedades (Informação, Tecnológica, Consumo), Consumo e Meio Ambiente, Consumo Consciente e Sustentável.

Confira a entrevista com a professora:

FAVI - Como podemos definir as fake news? E o que elas representam no nosso contexto atual?

Prof. Cinthia - As fake news, se formos traduzir literalmente, são notícias falsas. E este fenômeno é tão sério, que a expressão foi escolhida para representar o ano de 2017. A palavra de 2016 foi pós-verdade. E, mais recentemente, foram as fake news, por causa das eleições do Trump nos Estados Unidos. A ideia das fake news é, de alguma forma, criar informação – e essa informação em formato de notícia, o que dá um caráter visual de veracidade para quem acessa, recebe ou visualiza – mas que traz dados que não são verdadeiros. Isso pode ser desde um texto sobre determinado alimento que faz bem ou faz mal, até em situações de eleições, se um candidato é bom, se a proposta é boa, se ele está melhor ou pior nas pesquisas. Na verdade, o que suscitou tudo isso foi justamente a eleição do Donald Trump nos EUA, na qual os usuários de internet, de determinadas redes sociais, recebiam informações na medida em que demonstravam-se mais favoráveis ou menos favoráveis ao candidato, dizendo “olha, isso é bom por causa disso”, seguindo uma lógica do tipo: O que será que eles querem? O que será que eles gostariam que eu dissesse, que faria com que eles votassem em mim? Então, essas notícias foram lançadas pontualmente para esses usuários, levando a algumas mudanças de posicionamento, principalmente com os usuários indecisos e que não teriam ainda um posicionamento.

FAVI - Estamos vivendo uma época de muita polarização política, em que a maioria dos cidadãos tem acesso diário a muitas informações, verdadeiras e falsas. Que impacto este tipo de prática (de propagação de notícias falsas) pode ter, especialmente nesta época de eleições e decisões?

Prof. Cinthia - Quando a gente analisa o uso das fake news nesse tipo de contexto eleitoral, isso se torna muito perigoso, porque eu posso direcionar o eleitorado para X ou Y. Nós já estamos vivendo um momento de polarização. E isso pode se tornar não só polarizado, mas um confronto. Porque as pessoas que votam em X, só querem ouvir falar de X. E quem vota em Y ou Z, ou quantos forem candidatos, só querem ouvir sobre o seu escolhido. As pessoas estão muito “infladas” e essas notícias falsas ajudam a agravar. No momento que eu considero que vou votar em X, eu tenho uma série de notícias dizendo que X é bom e só vejo elementos para sustentar essa posição, isso faz com que o confronto acabe sendo mais direto. Só que está baseado em uma informação que, às vezes, não é verdadeira. Vivemos em uma sociedade em que temos acesso à informação, mas precisamos nos questionar sobre a qualidade da informação que estamos tendo acesso.

FAVI - Muitas pessoas acabam culpando a tecnologia pela facilidade na publicação e na disseminação das fake news, falando sobre robôs e sistemas automatizados que ajudariam a distribuir conteúdo nos sites e, principalmente, nas redes sociais. Como podemos responder a isso, para incentivar o uso responsável das descobertas tecnológicas e não propagar ainda mais “mitos” sobre o assunto ou tornar a tecnologia uma vilã?

Prof. Cinthia - É ótimo que se fale em uso responsável da tecnologia, embora a gente possa considerar como algo utópico ainda. As pessoas, nesse momento, estão mais interessadas em consumir a tecnologia, mas a maioria delas ainda não parou para refletir. Só que para refletir, é preciso educação de base, ou seja, eu preciso saber ler, saber escrever, preciso saber compreender um texto, para depois chegar no nível da reflexão, que é quando eu comparo situações, quando meço o que é o parecer de um analista ou de um influenciador, um youtuber, seja quem for. Mas eu tenho o discernimento para comparar e medir qual o peso que eu vou dar para cada uma das informações que estou recebendo. Valorar isso e formar a minha convicção, o meu entendimento sobre aquele tema. Quando a gente fala de uso responsável das tecnologias, tem muito caminho a percorrer para poder chegar nisso. E hoje, a gente ainda tem muitas pessoas que estão excluídas de todo o sistema tecnológico, informacional, educacional. E mesmo entre aquelas que estão incluídas, muitas não compreendem. A gente sabe que existe uma quantidade enorme de analfabetos funcionais, ou seja, pessoas que sabem ler, mas têm dificuldade de entender o que leram, de contar para alguém, de fazer um resumo. E esse caminho exige um processo educacional, para que as pessoas possam exercitar a sua cidadania, também por meio do uso da tecnologia, mas de modo responsável.Celular Freepik

Então, eu recebo uma informação em qualquer meio de mensagem instantânea e preciso questionar: será que isso é verdade? Quem me enviou? Será que essa pessoa é daquelas que me envia qualquer coisa, recebe e manda para frente, para todos os contatos que ela tem? Ou será que essa pessoa testou, verificou, validou essa informação? Assim, eu já tenho um grau de confiança naquilo que estou recebendo. O que acontece é que a tecnologia banaliza muita coisa. Ela banaliza a velocidade, o acesso, a facilidade. E isso faz com que eu, rapidamente, pegue aquilo sem questionar, sem refletir e dispare na minha rede social ou no meu aplicativo de comunicação instantânea, o que é um problema.

FAVI - De que maneira a área acadêmica e as instituições de ensino podem colaborar no combate às fake news?

Prof. Cinthia - O meu olhar, por ser professora universitária há 33 anos, é de que isso vem de formação de base. E quando falo de formação de base, incluo família, escola e instituições religiosas, independente de qual credo. Esses três pilares fazem a formação de base. A gente precisa que a família cumpra o seu papel, independente de qual formato de família estejamos falando; precisamos da escola, independente de qual processo pedagógico utilize; e da formação religiosa. Todo mundo tem que estar envolvido em formar um cidadão e ensiná-lo a usar a tecnologia. Para isso, ele também precisa conhecer o risco. Quando você era pequeno, provavelmente sua mãe dizia: “Não fale com estranhos”. Isso vale para a tecnologia também: com quem você está falando? Quem é a pessoa que está do outro lado? E isso a escola pode reforçar. Os amigos daquela associação religiosa que você frequenta também, aqueles que você considera verdadeiros amigos. Essa formação de base da criança é que vai fazer o adolescente ou o adulto usar a tecnologia de maneira responsável. Se quisermos inverter, dizendo: “Vamos deixar as crianças crescerem, se tornarem adolescentes e quando forem adultos nós vamos colocar ordem”, a gente já perdeu. Perdeu para um jogo, como o Baleia Azul; perdeu para um aliciador que conversou com o teu filho pela internet e marcou um encontro; perdeu para as fake news que já formaram um consenso ou fizeram a pessoa formular uma ideia sobre um assunto e não tem mais como retornar isso.

FAVI - A professora poderia comentar um pouco do que vem sendo estudado na academia sobre isso?

Prof. Cinthia - Se a gente olhar pelo lado da Tecnologia, ela vem evoluindo tal qual o homem na sociedade, trazendo benefícios e malefícios. Muitas vezes, uma tecnologia é criada para o bem, mas alguém tem uma ideia e imagina: por que não usar isso para fraudar o sistema? Para quebrar uma senha ou clonar um cartão de crédito, por exemplo? São tecnologias que estão aí, para serem usadas para o bem ou para o mal. Então, o ensino da tecnologia é super importante e é necessário tornar os alunos da tecnologia também cientes disso. Que o que eles vão criar lá na frente como tecnologia, aplicativos, softwares ou hardwares poderão ter diferentes usos. E pensar: o que este meu novo programa de computador vai trazer de benefícios para a sociedade? Pensar mais no todo, não somente no lucro, no sucesso da empresa, no que a pessoa quer fazer. E a gente, como formador de profissionais, precisa se preocupar.

O Direito, por outro lado, vem com a parte legislativa. Normalmente, a gente brinca que o Direito corre atrás da Tecnologia. Porque a tecnologia é criada, é desenvolvida, é colocada na prática e, só então, os problemas aparecem. Quando aparecem, o Direito entra para regular, para normatizar, para verificar quais são os benefícios e malefícios. Surge então a necessidade do direito entrar em ação, seja com um projeto de lei, um ato normativo, uma medida provisória, o que for necessário para ordenar aquele uso, de modo que se vise ao benefício da sociedade. E, se houver malefício, como responsabilizar, quem responsabilizar e as medidas cabíveis nessa responsabilização. Se cível, se criminal, se empresarial… Se for um colaborador dentro de uma empresa, pode haver um processo administrativo interno, para depois ser tomada uma decisão. Tudo isso o Direito vai organizando, a partir das tecnologias ou dos danos que venham a ser causados.

E isso não pára, porque a tecnologia não pára, não tira férias. Em geral, cada descoberta leva a mais outra, sempre pensando no futuro, em ir além. E esse diálogo entre Direito e Tecnologia não é uma coisa tão simples, porque essas duas áreas possuem linguagens muito específicas, possuem modos de trabalho, de entendimento e de interpretação completamente distintos. Fazer os dois lados conversarem é um desafio e uma necessidade.

FAVI - Que dicas podemos dar para as pessoas identificarem as fake news?

Fake News 2 FreepikProf. Cinthia - No primeiro momento, parar e se perguntar: será que isso é uma informação verdadeira? Qual é a fonte desta informação? De onde veio? Veio de uma instituição acadêmica ou jornalística? Eu preciso sair daquele ambiente onde eu recebi a informação e ir pesquisar, dedicar o meu tempo. E refletir: onde posso buscar essa informação? Tem dados estatísticos, foi publicada por alguma universidade ou veículo da imprensa? Posso colocar essa informação no buscador da internet e ver o que aparece, se encontro aquela informação em fontes confiáveis. Hoje, também existem sites específicos para identificar fake news. Você pode entrar nesses sites e descobrir se aquela notícia é verdadeira ou não, com a explicação do que estava incorreto, se a imagem foi manipulada ou foi feita em outra data, etc. Se a dúvida ainda não estiver esclarecida por estes sites, você mesmo precisará dedicar esse tempo de pesquisa, antes de passar para frente. E repassar somente se tiver certeza de que é sério. Também podemos questionar a pessoa que nos mandou: "De quem você recebeu?". É preciso se preocupar com a origem da informação.

FAVI - O que os cidadãos podem fazer ao identificar que um site está propagando uma notícia falsa? Existe uma maneira de denunciar e/ou pedir que a informação seja “retirada do ar”?

Prof. Cinthia - Nesses mesmos sites que informam se a notícia é fake ou não, é possível fazer uma notificação, um aviso do que foi recebido, para que seja avaliada a veracidade. E é importante também fazer o papel reverso no grupo ou meio em que você recebeu aquilo, informando que a informação foi verificada e que não é verdade, pontuando as razões, indicando a fonte verdadeira. Só que a maior parte das pessoas não se dão ao trabalho de fazer isso, às vezes até para evitar de criar uma inimizade, não se indispor e acaba não falando nada. E aí deixamos de exercer a nossa cidadania, nosso dever como cidadão dentro de uma sociedade tecnológica e informacional, que é a que a gente vive hoje.

FAVI - Em relação à área jurídica, temos uma expectativa boa em relação a isso tudo?

Prof. Cinthia - Eu acho que a gente tem sim. Já houve decisão sobre fake news. Os aplicativos de mensagem instantânea agora marcam as mensagens encaminhadas, por exemplo, o que tem a ver com a legislação europeia, que defende que precisa sinalizar que foi encaminhado de alguém, que aquela pessoa que te mandou não foi a fonte primária da informação. É muito raro você receber algo que nasce da pessoa, a maior parte é encaminhado e perde-se essa referência. Existem mecanismos que estão surgindo para tentar lidar, como o Marco Civil da Internet, que regula determinadas ações, os provedores de aplicação… São instrumentos importantes. Mas é preciso atentar também para o limite, às vezes muito tênue, entre a liberdade de expressão versus o uso irresponsável da tecnologia. Uma coisa é estimular a criatividade, a ironia, as brincadeiras. E outra é usar isso para induzir, influenciar ou propagar algo falso.

FAVI - Para finalizar, a senhora gostaria de deixar alguma mensagem ou comentário sobre suas reflexões acerca deste tema?

Prof. Cinthia - É importante nós sabermos que a tecnologia nos favorece em muitos momentos, facilita a nossa vida (a velocidade da informação, a possibilidade de eu me comunicar com as pessoas, de fazer uma compra na internet, de baixar um conteúdo para uma pesquisa científica, para realizar um trabalho escolar, etc.). Mas ela também traz responsabilidades. E, no caso das fake news, essa responsabilidade é a de parar e refletir, para saber se aquilo realmente tem uma fonte e se é fidedigna, se é confiável.

Fotos: Banco de Imagens Freepik

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